FREE-SPACE

  • Na arquitetura, o termo “espaço” é caracterizado por duas qualidades contraditórias, porém complementares: sendo, por definição, livre, ele precisa ser delimitado para existir. Um espaço necessita de um perímetro. Nesse sentido, um campo aberto não é um espaço, mas um território. Portanto, se adicionarmos alguns pontos de referência e linhas ao vazio desse território, poderíamos dizer que, entre eles, há um espaço. O perímetro de um espaço pode ser gerado de diversas maneiras por meio do uso de elementos arquitetônicos — um piso, um conjunto de colunas, paredes ou uma cobertura. Quando inserido em um contexto urbano, seu potencial cresce devido ao contraste que cria. Como uma oportunidade encontrada na ausência de massa construída, pode ser entendido como um “espaço livre”. Na cidade, um espaço livre é alimentado pela densificação ao seu redor e, nessa condição, seu perímetro desempenha um papel importante. Gostamos de pensar essa relação essencial entre perímetro e espaço por meio do belo conceito de (in)determinação — a criação de um espaço livre precisa primeiro ser determinada por uma forma específica para se manter vazio e cheio de possibilidades.

    O novo espaço coberto do parque é agradável como um abrigo fenomenológico, com a brisa fresca que movimenta suavemente o velário e sua luz natural filtrada. Ele também se apresenta como um generoso espaço público para a Bienal, onde as pessoas podem se reunir em um conjunto diverso de atividades e eventos possíveis. Nesse sentido, o Free-Space dialoga diretamente com o tema curatorial Handle with Care, ao abordar um espaço que por muito tempo foi tratado como puramente funcional e, portanto, negligenciado. O acesso de veículos do parque, apesar de ocupar uma posição visual e espacial estratégica e permanecer vazio na maior parte do tempo, nunca foi considerado um lugar para pessoas. O projeto propõe um deslocamento cuidadoso nessa lógica: em vez de negar seu papel infraestrutural, ele expande suavemente seu significado.

    A altura e a permeabilidade do projeto permitem deliberadamente que o acesso ocasional de veículos de serviço continue possível, reconhecendo a necessidade dessa função sem permitir que ela defina o espaço por completo. “Cuidar com atenção” torna-se, assim, um ato de reconhecimento — reconhecer o potencial latente de um espaço intermediário e permitir que ele seja compartilhado, habitado e valorizado. Ao introduzir um perímetro arquitetônico mínimo sem bloquear sua função original, a ação Free-Space defende uma coexistência mais generosa entre o uso técnico e a presença humana, transformando uma área residual em um limiar, um lugar de chegada e um espaço aberto à apropriação.

    Para o desenho da intervenção no Parque Vila Saroli, decidimos não torná-la pesada ou inibidora: apenas oito colunas de madeira e um generoso velário branco criando um “espaço livre”. A combinação desses elementos arquitetônicos — colunas e velário — resulta em uma forma específica que altera o caráter espacial do acesso de veículos existente no parque sem ocupá-lo.

    O acesso permanece o mesmo, mas também diferente pela presença da instalação, que reforça seu perímetro. Observando mais de perto, as colunas de madeira funcionam também como referências que enfatizam uma nova entrada, e o velário — que se estende livremente por 10 metros — é feito de uma malha branca translúcida, barata, usada em estufas, proporcionando sombras que se transformam ao longo do dia conforme a luz do sol entra e se move pelo espaço, sombreando também as árvores existentes. Essa cobertura pode ainda se tornar uma parede à noite, funcionando como superfície de projeção entre as colunas. Esse conjunto, em sua totalidade, confere estabilidade à estrutura sem a necessidade de qualquer intervenção no solo existente do parque.

    A ação Free-Space será, ao mesmo tempo, uma forma específica que funciona como uma imagem forte para a Bienal e um espaço indeterminado para que a vida se desenrole da maneira mais livre possível.

  • Ano: 2026
    Lugar: Lugano, Suiça
    Status: Proposta para intervenção na Biennale Svizzera del Territorio 2026: Handle With Care

  • Equipe: MATTERIA + AGENCIA
    Autores: Lucas Coelho Netto, Priscila Bellas

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Centro Municipal de Esporte e Cultura